Classes multisseriadas são solução para fortalecer a Educação do Campo, defende professora durante Encontro do FormaCampo
As classes multisseriadas representam uma estratégia fundamental para garantir o direito à educação das populações do campo e não devem ser encaradas como um problema para as redes municipais de ensino. Essa foi a principal mensagem defendida pela professora Vilma Áuria Rodrigues, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e da rede municipal de ensino de Guanambi, durante o II Encontro Internacional e XI Encontro Baiano de Educação do Campo do Programa FormaCampo, realizado na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), em Vitória da Conquista.
Em entrevista à Web TV Undime Bahia, a educadora destacou as reflexões promovidas na roda de conversa sobre classes multisseriadas, realizada na manhã do segundo dia do evento. Segundo ela, o debate reforçou a necessidade de superar preconceitos e investir na organização de práticas pedagógicas que fortaleçam esse modelo de ensino nos municípios.
“As classes multisseriadas nunca foram e nunca serão o problema da Educação do Campo. Elas são a solução para garantir que a educação aconteça nos territórios onde vivem esses estudantes”, afirmou.
Vilma explicou que o desafio não está na organização das turmas, mas na forma como elas são compreendidas pelos gestores e pelos sistemas de ensino. Para a professora, ainda persiste um discurso equivocado de que as classes multisseriadas oferecem uma educação de menor qualidade, visão que é desmentida por experiências exitosas apresentadas durante o encontro.
Segundo ela, representantes de pelo menos cinco municípios compartilharam resultados positivos obtidos em avaliações educacionais realizadas em escolas com classes multisseriadas, demonstrando avanços nos indicadores de aprendizagem.
A educadora também alertou para os impactos do fechamento de escolas do campo. Na avaliação da professora, extinguir classes multisseriadas significa enfraquecer a permanência das famílias no meio rural.
“Quando se fecha uma escola do campo, compromete-se o direito das crianças de estudarem no próprio território e coloca-se em risco a permanência das famílias no campo”, ressaltou.
Vilma reforçou que as classes multisseriadas não representam uma política assistencialista, mas uma garantia do direito à educação contextualizada, respeitando as especificidades culturais, sociais e produtivas das comunidades rurais.
Ressignificar concepções e fortalecer políticas públicas
Durante a entrevista, a professora destacou que a valorização das classes multisseriadas passa, necessariamente, pela mudança de concepção dos gestores públicos, das equipes pedagógicas e de toda a comunidade escolar.
Ela defendeu que os currículos, os Projetos Político-Pedagógicos (PPPs) e os referenciais educacionais devem considerar as especificidades da Educação do Campo, conforme previsto na legislação brasileira.
Nesse contexto, Vilma ressaltou o papel desempenhado pelo Programa FormaCampo na construção desse novo olhar sobre a educação ofertada às populações do campo.
“O FormaCampo tem uma responsabilidade muito grande nesse processo de reconfiguração da Educação do Campo, ao oferecer instrumentos organizacionais, propostas curriculares e formação para os municípios”, afirmou.
A professora destacou ainda que mais da metade dos municípios baianos já participou das ações do programa, evidenciando um movimento crescente de fortalecimento das políticas públicas voltadas à Educação do Campo.
Para ela, esse avanço representa uma mudança importante na compreensão de que os currículos precisam dialogar com as realidades dos territórios rurais, evitando a simples reprodução de modelos pensados exclusivamente para escolas urbanas.
“O currículo nacional precisa ser apropriado considerando as especificidades da Educação do Campo. É esse movimento que estamos fortalecendo na Bahia”, concluiu.
