Pesquisa mostra que um em cada 5 municípios do País ainda não tem o ensino de Tecnologia no currículo

Pelo menos uma a cada cinco (21%) redes municipais do Brasil ainda não tem o ensino de Tecnologia e Computação no currículo dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Nos anos finais, são 17%. Já na Educação Infantil, o índice sobe para 37%. Esses são alguns dos achados do estudo “Tecnologias Digitais nas escolas municipais do Brasil: cenário e recomendações”, organizado pelo Centro de Inovação para Educação Brasileira (CIEB), pela Fundação Telefônica Vivo e a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), com parceria técnica do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede). O lançamento oficial da pesquisa acontece nesta quarta-feira (10), durante a Bett Brasil.

Além de identificar como o ensino de Tecnologia e Computação está presente no currículo das redes municipais, o estudo teve como objetivo também mapear quais são as estruturas de apoio ofertadas pelas Secretarias de Educação para garantir a implementação e o uso de tecnologias digitais nas escolas. Nesse sentido, foram avaliados diversos aspectos, como a existência de orçamento específico para a área de tecnologia e como é feita sua gestão; a existência de equipes e, ou, áreas dedicadas ao planejamento e à implementação de tecnologias digitais nas escolas (e o perfil dos profissionais que compõem esse time); como a secretaria se organiza para oferecer apoio pedagógico às escolas; se oferta ou não formações aos professores e qual a sua periodicidade e carga horária; como são realizadas as ações de planejamento e monitoramento de compras de equipamentos, de fornecimento de conectividade e de manutenção; perspectivas futuras em relação à temática, etc.

Para isso, a pesquisa valeu-se da aplicação de um questionário online a uma amostra representativa das redes de ensino do País. Ao todo, foram consideradas as respostas de 1.065 municípios, espalhados por todos os Estados, garantindo ao estudo um nível de confiança de 95% para o resultado nacional, com margem de erro de 3 pontos percentuais. Os resultados — obtidos via essa pesquisa quantitativa e também a partir de visitas a municípios e entrevistas com secretários de Educação e outros profissionais — indicam que a maior parte das redes de ensino está mobilizada e atenta à temática. Há diversos esforços, que merecem reconhecimento, sendo feitos pelo Brasil para que a tecnologia esteja presente nas salas de aula. Contudo, ainda há muitos desafios para uma adoção qualificada de tecnologia, que seja transformadora dos processos de ensino e aprendizagem.

Foram identificadas também desigualdades importantes, e que não podem ser negligenciadas, entre redes de ensino de portes diferentes e que atendem a estudantes com distintos perfis socioeconômicos. Dentre todos os aspectos investigados, há três que merecem destaque: a) a já citada presença do ensino de Tecnologia e Computação nos currículos; b) a existência de equipes e, ou, profissionais na estrutura das secretarias dedicados à implementação e ao acompanhamento do uso de tecnologias nas escolas; e c) a oferta de formação continuada aos docentes.

Em relação ao primeiro tópico, é importante destacar que a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), homologada no final de 2017, determinou a obrigatoriedade de se trabalhar a cultura digital. Já a resolução CNE/CEB nº 1, de 4/10/2022, traz que “cabe aos estados, municípios e Distrito Federal estabelecerem parâmetros e abordagens pedagógicas de implementação da computação na Educação Básica”, iniciando o processo em até um ano (ou seja, até outubro deste ano). Ainda assim, um número expressivo de redes de ensino não atualizou ou desenvolveu currículos que englobam o ensino de Tecno­logia e Computação: relembrando que nos anos iniciais são 21%. E esse percentual é significativamente maior entre as redes que atendem a estudantes de nível socioeconômico (NSE) mais baixo: 30% ante 15% daquelas cujos alunos têm NSE mais alto.

Além de trazer os índices gerais para o Brasil e as regiões, o estudo dividiu os municípios em três grupos de NSE (sendo o tercil 1 referente aos municípios que atendem a estudantes de mais baixo NSE; o 2, intermediário; e o 3, mais alto) e também em três faixas do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) com a intenção de verificar as possíveis desigualdades relacionadas a esses aspectos.

“A realização da pesquisa teve como objetivos construir o cenário nacional e trazer recomendações a fim de que compreendamos o que temos de tecnologia digital nas escolas, como está distribuída regionalmente e qual é o grau de equidade na sua oferta. Também evidencia uma questão muito mais relevante e complexa que é o tamanho do desafio da realização da Competência 5 da Base Nacional Comum Curricular, que implica na compreensão e utilização das tecnologias digitais no cotidiano, no uso da tecnologia como parte da vida e não como uma vida à parte. Por outro lado, sabemos que não há como avançar se não tivermos uma infraestrutura de tecnologia adequada em todo país, que tenha como princípio de oferta a equidade. Caso contrário iremos aumentar ainda mais o fosso das desigualdades gerando, por meio da exclusão digital, maiores distâncias entre os incluídos e os excluídos. Para transformar é preciso conhecer e não tem jeito melhor de conhecer do que indo às fontes, compreendendo, sentindo e levantando demandas”, afirma Luiz Miguel Martins Garcia, Dirigente Municipal de Sud Mennucci/ SP e presidente da Undime.

Sobre o segundo item, os dados apontam que 73% das redes municipais de ensi­no não possuem uma área e, ou, equipe específica dedicada ao planeja­mento, apoio e monitoramento de ações para uso de tecnologias digitais nas escolas. Além disso, em mais da metade dessas redes (55%) não foram identificados outros profissionais na estrutura organizacional da Prefeitura de­dicados à temática. “Uma das principais consequências da falta de estrutura organizacional adequada é um cenário onde as secretarias trabalham a partir das demandas das escolas, uma vez que não conseguem atuar de forma preventiva e planejada. Nesse sentido, o maior desafio é desenvolver uma equipe de tecnologia integrada entre as diversas áreas, que garanta um planejamento transversal e que seja capaz de englobar as perspectivas de infraestrutura, pedagógica e de docentes”, aponta Julia Sant’Anna, diretora executiva do CIEB.

Já em relação à formação continuada aos docentes sobre a temática de tecnologia, a pesquisa indica que em 39% das redes municipais essa oferta não existe (chegando a 44% nas regiões Sudeste e Nordeste). Há também desigualdades importantes de acordo com o NSE do município: 49% das redes que atendem a estudantes de NSE mais baixo (tercil 1) não oferecem formação na temática contra 32% das redes no tercil 3 (mais alto). Em relação às faixas de Ideb, a diferença é de 15 pontos percentuais: 45% das redes que estão no nível mais baixo não oferecem ante 30% daquelas no nível mais alto. “A tecnologia é uma aliada da educação e pode ser usada de forma transversal em atividades curriculares de diversas disciplinas. Mas, para isso, é primordial que os educadores estejam preparados para aplicá-la em sala de aula. Não basta conhecer as ferramentas, é necessário compreender seu potencial pedagógico e, assim, torná-las parte dos processos de ensino e de aprendizagem. E, sem dúvida, a formação continuada, aplicada ao desenvolvimento das competências digitais, é o caminho possível para tornar isso uma realidade. A urgência do tema é reforçada pelos próprios dados da pesquisa, que mostra que 78% da rede reconhece a oferta de mais formações em tecnologia e computação para os professores como uma prioridade para os próximos anos”, reflete Lia Glaz, diretora presidente da Fundação Telefônica.

Ernesto Martins Faria, diretor-fundador do Iede, destaca a grande desigualdade no que diz respeito a garantir as ações estruturantes para viabilizar o impacto das tecnologias na aprendizagem. “O estudo mostra que em eixos estruturantes, como currículo e formação continuada, há uma desvantagem das redes de ensino que atendem alunos de baixo nível socioeconômico. Isto é, os alunos que mais precisam de uma escola de qualidade têm menos possibilidades de serem impactados por uma adoção qualificada da tecnologia”, considera.

O relatório completo está disponível gratuitamente para download neste link.

Foto: Undime

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